
17 de julho de 2026
A bandeira, o treinador egípcio e a seletividade da indignação
Em artigo no UOL, o presidente da CONIB e Comissário para antissemitismo do Congresso Judaico Mundial, Claudio Lottenberg, abordou o uso de competições esportivas como plataforma para defender posições políticas.
<p>Em artigo no UOL nesta segunda-feira (6), o presidente da CONIB e Comissário para antissemitismo do Congresso Judaico Mundial, Claudio Lottenberg, abordou o uso de competições esportivas como plataforma para defender posições políticas e citou o episódio ocorrido em 1972, durante os Jogos Olímpicos de Munique, em que onze atletas e dirigentes israelenses foram assassinados pelo grupo terrorista Setembro Negro.</p><p>Uma imagem chamou a atenção durante a Copa do Mundo: o treinador da seleção do Egito entrou em campo carregando a bandeira palestina. O gesto foi imediatamente interpretado por muitos como uma demonstração de solidariedade. É um direito de qualquer pessoa manifestar suas convicções. Mas aquela cena também convida a uma reflexão mais profunda: por que alguns conflitos despertam mobilização mundial permanente, enquanto outros parecem desaparecer da consciência coletiva?</p><p>O sofrimento da população palestina é real e merece atenção. Não há dúvida sobre isso. A questão é outra. A escolha do símbolo desperta inevitavelmente perguntas quando parte de um representante de um país que, ao longo de décadas, manteve uma relação extremamente complexa com Gaza. O Egito compartilha uma fronteira direta com a Faixa de Gaza por meio da passagem de Rafah. Durante muitos anos, essa fronteira permaneceu sob rígido controle por razões de segurança nacional, limitando a circulação de pessoas e mercadorias em diferentes momentos.</p><p>Em 1972, durante os Jogos Olímpicos de Munique, o mundo assistiu, horrorizado, ao assassinato de onze atletas e dirigentes israelenses pelo grupo terrorista Setembro Negro. Mais de cinco décadas depois, continuamos vendo grandes competições esportivas servindo de palco para manifestações relacionadas ao Oriente Médio. Evidentemente, não se pode comparar um gesto simbólico com um atentado terrorista. São acontecimentos de natureza completamente diferente. Mas ambos demonstram que Israel continua ocupando um lugar singular no imaginário político internacional.</p><p>Essa seletividade não aparece apenas no conflito israelo-palestino. A guerra entre Rússia e Ucrânia já produziu centenas de milhares de mortos e feridos. Conflitos no Sudão, no Iêmen, na República Democrática do Congo e em outras regiões continuam causando enormes tragédias humanas. No entanto, raramente observamos a mesma intensidade de campanhas ou gestos simbólicos durante grandes eventos esportivos.</p><p>Se os direitos humanos são universais, a indignação também deve ser. Se o esporte pretende transmitir mensagens de paz, essas mensagens precisam alcançar todas as vítimas da violência, independentemente de sua nacionalidade, religião ou posição geopolítica. A credibilidade da defesa dos direitos humanos depende da coerência. Quando escolhemos quais vítimas merecem nossa solidariedade e quais tragédias podem ser ignoradas, deixamos de defender princípios universais e passamos a defender preferências políticas.</p><p><em>Fonte: CONIB — Confederação Israelita do Brasil</em></p>